O que é Forn Siðr?

Texto por Clarissa Roldi
Prefácio no livro Heathenry Tribal, por Daniel Falcão 


Não é incomum ver a palavra "paganismo" relacionada ao termo "religião" ou "fé". No entanto, existe mais no paganismo do que a simples crença em deuses da era pré cristã.

É válido lembrar que antes da chegada do cristianismo os antigos não viam uma separação entre cultura/espiritualidade; Bill Linzie usa os termos "modular religion" "ethnic religion" para diferenciar a forma como cristãos e heathens enxergam a religiosidade, respectivamente.

Uma "modular religion" (religião modular) pode ser incorporada independente de barreiras culturais, ao passo que uma "ethnic religion" (religião tribal) tem sua cosmovisão interferindo diretamente nas práticas religiosas (Linzie, 2007).

Em outras palavras, para entendermos como funciona o paganismo tribal é necessário um entendimento da visão de mundo no qual suas práticas religiosas estão inseridas. A própria ideia de separação entre "religiosidade" e vivência é uma prática que já não mais se refere à cosmovisão heathen (Rood, 2011).

O termo "religião", por si só, tem um peso mais cristão do que pagão; paganismo engloba, dentro de seus conceitos, a forma como enxergamos o mundo à nossa volta, como vivemos nossas experiências e convivemos com as pessoas à nossa volta e até como lidar com eventuais problemas. Em suma, podemos dizer que é um "estilo de vida". Portanto, o melhor termo para nomear as práticas heathen seria "costume" em detrimento de "religião" - Forn Siðr, ou, o "costume antigo".

Como exemplos superficiais de como cultura/espiritualidade estão tão interligadas na visão heathen que torna-se impossível uma separação, podemos citar o culto aos ancestrais e a convivência com os vættir; a conexão com a terra, o animismo. Tais práticas eram tão comuns aos antigos que, mesmo após a cristianização, muitos as mantiveram

Dicotomias como esta separação entre espiritualidade/cultura e outras como conceitos de bom/ruim, bem/mal, certo/errado chegaram junto com a visão de mundo cristianizada, assim como o termo "religião" surge, a partir do momento em que este se vê desvinculado de práticas culturais. 

Conceitualmente falando, religião/cultura estão diretamente interligados, mesmo tratando-se de uma religião modular. Ao perguntar sobre moral para um ateu que tenha sido criado dentro de uma cultura cristianizada (vide Brasil), é bem provável que suas respostas farão referência à moral cristã, envolvendo dualidades que estão, provavelmente, enraizadas de forma concreta na mente do sujeito. No entanto, neste caso, é possível separar o que se tornou cultural daquilo que faz parte do culto religioso monoteísta. 

Tais dicotomias não fazem parte da cosmovisão tribal; existem muito mais "shades of grey" do que puro e simples preto no branco. 

Um dos maiores desafios para nós, heathens brasileiros, é incorporar uma cosmovisão que difere de forma quase que transcendente da qual fomos criados desde o dia em que nascemos. Não somente, como também a aplicação da mesma no nosso dia-a-dia torna-se penoso, visto que somos constantemente bombardeados por situações que exigem de nós a preservação da conduta moral cristã. 

É necessário, portanto, um esforço não somente para a compreensão de valores heathens, como também para a aplicação dos mesmos. Sendo assim, dentro do contexto reconstrucionista, torna-se de suma importância o esforço para fortalecer não apenas a prática isolada, mas sim a comunidade como um todo.