Paganismo pra que?



 Publicado originalmente na revista Heathen Brasil
Texto por Clarissa Roldi 

O olhar curioso que recebo de muitas pessoas ao falar sobre minhas práticas religiosas é comumente seguido de uma série de perguntas que, eventualmente, leva ao seguinte questionamento: “mas para que serve isso?”

 Explicar que faço parte de um costume que não eleva o divino a um patamar de onisciência e onipresença ou mesmo de superioridade nem sempre é uma tarefa simples; em uma sociedade construída a partir de valores cristianizados, pode ser um tanto quanto estranho a presença de deuses que podem nem sequer ter consciência da minha existência. 

Ora, se não elevamos nossos deuses ao pedestal de máxima autoridade; se não possuímos um livro sagrado que nos dita dogmas, então, afinal, para que serve o paganismo nórdico? Decerto, ressaltar que existe uma diferença entre “religião” e “costume” torna-se pertinente diante desta indagação.

Criada em uma família católica, era recorrente me deparar com uma série de dilemas; concordava com algumas coisas aqui e ali, porém nunca me senti plenamente satisfeita com seus dogmas e filosofias, tampouco encontrava ali algo útil para ser um guia na minha vida. Não é o meu intuito levantar questionamentos ou críticas a respeito de qualquer prática religiosa; simplesmente não era para mim - mas pode ser para qualquer outra pessoa e não cabe a mim fazer julgamentos a respeito de escolhas pessoais.

A ideia de misticismo, magia, a idealização de Valhalla, ou qualquer outro estereótipo que gira em torno da cultura nórdica - o famoso título de “viking” - pode ter sido um atrativo que aproximou muitas pessoas do paganismo. Não foi o meu caso. 

 Eu encontrei dentro do paganismo nórdico conceitos que não apenas coincidiram com a minha forma de pensar como também conceitos que já aplicava de forma inconsciente na minha vida; e tornar-me consciente destes proporcionou-me a oportunidade de aprimorá-los e crescer como pessoa. 

Da forma como me relaciono com a natureza e as pessoas no meu dia-a-dia até a forma como aprendi a lidar com o tempo e até mesmo com a morte, a visão de mundo germânica tem sido meu guia não porque existe um conjunto de regras que me força a aceitar as coisas como elas são; mas sim porque é uma visão que me permite um maior discernimento na hora de tomar decisões importantes e me faz refletir de forma livre sobre minhas escolhas. É um costume que me incentiva a buscar conhecimento; que me faz pensar nos meus atos e suas consequências em vida em detrimento de me preocupar com punições ou recompensas após a morte; que me faz refletir sobre conceitos de lealdade e, por conseguinte, sobre como construir laços duradouros, da mesma forma que me permite uma visão mais aguçada a respeito de relações que não compensam. 

 O paganismo me ensinou a importância dos meus ancestrais; existo porque eles existiram e carrego comigo ensinamentos valiosos passados através das gerações. Aprendi a conquistar o respeito dentro da minha comunidade e a respeitar meus semelhantes, assim como aprendi a defender meus valores e persistir na busca por conquistas significativas. 

Incorporar tais valores no meu dia-a-dia é desafiante e quiçá, doloroso; porém, sinto que existem lições importantes a serem aprendidas por trás de cada desafio que enfrento e acredito que eles estão ali para me fortalecer e incentivar-me a amadurecer, tanto espiritual quanto emocionalmente - recusar-me a meramente aceitar a vontade de um ser divino superior e abaixar a cabeça diante de eventos que podem parecer imutáveis também foi um aprendizado que veio junto com o costume no qual escolhi viver. 

Então, para que serve o paganismo? Ele serve para me guiar através de um caminho em direção a ser uma pessoa melhor. Crescer como pagã, dentro da minha vivência e experiência equivale, também, a crescer como ser humano.