Do Ut Des

Texto por Caio Mello 
Revisão: Clarissa Roldi

O ciclo de presentes e suas implicações no antigo costume

Nas antigas civilizações nórdicas e em muitas outras, trocas e contratos tomam forma de presentes. Teoricamente essas são voluntárias; no entanto, existe uma obrigação implícita de reciprocidade.

Do ut des (Latim) - literalmente dou para que me dês - descreve sucintamente como funciona o culto dentro do antigo costume germânico. À primeira vista há a impressão de que se trata de uma forma de propina ou troca obrigatória, o que não poderia estar mais longe da realidade.

Primeiramente devemos contextualizar como se dão as trocas e formas de presentear nos dias atuais e como isso influencia o paganismo germânico como um todo. Desde a natureza individualista do mundo moderno até a cultura ocidental comum, vemos que existe uma tendência unilateral no tratar com seres divinos.

Observamos o caso onde as religiões correntes criam uma visão de virtudes e valores não práticos para se alcançar o favor do divino; isso tem como consequência relativo desinteresse em engajar nessas atividades ou o vício da hipocrisia. Há também correntes de pensamento que favorecem a oferta de forma corriqueira, sem nenhuma meditação; uma mera transação pelos serviços do ser que lhe favoreceu.

Com as duas considerações acima e sabendo que esses modos de pensar são populares e difundidos na cultura popular, é possível entender por que muitos heathens modernos tem tanta dificuldade de entender o ciclo de presentes como um todo. Como visto no costume Islandês de equiparar sociedade à lei e, na ciência de que leis, costumes, virtudes e religiosidade eram peças centrais na definição da sociedade, é possível verificar que a manutenção dos costumes não só tinha valor em manter estabilidade social, mas possuía um caráter religioso.

Por trás da troca de presentes existe a consideração de que a troca imbui o objeto de um caráter sacro; existe uma transferência implícita de poder numinoso entre os participantes da troca de presentes, criando uma deficiência desta substância (chamada de mægin); no remetente existe então uma necessidade de retornar o favor. Quando isso acontece existe uma sinergia que favorece ambos os participantes, isto é, este poder se torna maior ao invés de se manter constante - como é de se esperar de uma troca equivalente.

Se não há reciprocidade nesta espécie de troca, existe a consideração de que a teia do urðr força o recipiente a entregar algo de valor equivalente de alguma forma.

A rigor, a reciprocidade obrigatória também se estende aos deuses. Claro que da nossa parte os presentes são em maior parte físicos e da parte deles metafísicos - em forma de bençãos, sejam quais forem.

O ciclo de presentes é voluntário e não coercivo. Ao lembrar que a palavra blót (de tradução ainda disputada) tem fortes indicativos de que sua raiz tem o significado em “fortalecer”, no caso, “fortalecer aquele que recebe os presentes sacrificados”, é de minha crença que os deuses e outros vættir não precisam daquilo que oferecemos, mas certamente tem a ganhar com isso também.

É também preciso lembrar que presentes não se limitam a objetos físicos mas também intangíveis; a título de exemplo, presentear alguém importante muitas vezes tem como retorno o cultivar desta relação - uma demonstração de afeto tem como resposta a contínua presença da pessoa em sua vida pessoal. No contexto religioso, mais especificamente no tratar de divindades, podemos verificar que a troca de intangíveis entre pessoas e deuses ou pessoas e vættir se dá por meio do estabelecimento de acordos - juramentos.

O ciclo de presentes é um dos pilares da crença germânica e desempenha grande papel na sustentação das relações existentes dentro da comunidade que ela encompassa, um dos ossos no esqueleto do innangaðr.


Glossário:

Numinoso - sagrado, sacro. O termo é utilizado em contexto heathen em geral para separá-lo do significado comum de sagrado.
Urðr - Wyrð em inglês arcaico, literalmente aquilo que se tornou. Em contexto germânico trata se da cadeia que regula ações e reações de toda espécie,basicamente a metafísica do destino germânico, muitas vezes tratada como predecessor de destino.
Heathen - Termo descritivo de um praticante de crenças tipicamente tribais e não abraâmicas. Dentro do nosso contexto (germânico) tende a descrever genericamente qualquer praticante de paganismo germânico. O termo é utilizado como sinônimo do descritivo Pagão.
Vættir - Espíritos naturais, descreve genericamente qualquer espírito natural desde landvættir (espíritos da terra) até possivelmente os deuses (considerados vættir maiores ou ancestrais glorificados)
Innangaðr - Cerco interno, descreve a comunidade ordeira em contrapartida ao externo caótico e desconhecido. Em linhas gerais, as múltiplas camadas das nossas relações próximas. 


Fontes: 

Ensaio sobre a Dádiva, p.3, O presente e a obrigação da reciprocidade - Marcel Mauss 
Culture and History in Medieval Iceland: An Anthropological Analysis of Structure and Change, p.136-137, Hastrup.