Innangarðr e Útangarðr: O bem, o mal, e suas implicações na legalidade e cosmovisão nórdica

Texto por Caio Mello 
Revisão: Clarissa Roldi

Definindo “bem” e “mal”:

Os antigos germânicos possuíam, de fato, um conceito de “bem” e “mal”. Este conceito surge da forma como eles se organizam socialmente em oposição à definições modernas ligadas à religião; não podemos dizer que estes conceitos na cosmovisão nórdica estão desligados de crenças, já que os costumes e leis sociais eram a essência da prática religiosa antiga, mas é possível afirmar que eles não surgem unicamente de conceitos religiosos.

Devemos analisar a palavra “bem” - no caso, “good” - que tem sua origem em *gódanaz, do Proto-Germânico, e em *ghedh, do Proto-Indo-Europeu, traduzidos como “apropriado” e “unir, pertencer” respectivamente. O que podemos extrair disto? Se “bem” e “mal” estão definidos em torno da estrutura social, o “bem” então é definido como “aquilo que é apropriado/cabível a sociedade”.

Analogamente, se o “bem” é definido como tudo aquilo que beneficia ou que pertence a uma sociedade, o “mal” é, então, definido como tudo que é inapropriado ou que não pertence à sociedade.
Para os germânicos antigos, pagãos de outrora, os conceitos “sociedade” e “lei” eram sinônimos; sendo assim, é possível inferir que “bem” e “mal” estão ligados a tudo que está dentro da lei e tudo aquilo que está fora da lei. O costume de equiparar a sociedade à lei é melhor ilustrado pela punição de crimes hediondos - o criminoso era tido como fora-da-lei, e estar fora da lei era o equivalente a ser proscrito, isto é, removido da sociedade civil.

Sabendo que lei e sociedade são equivalentes, podemos redefinir o conceito de “bem” como “aquilo que é apropriado para a lei”. Logo, por definição, uma lei não deve de forma alguma prejudicar a sociedade - uma lei só é lei de fato quando é apropriada para a sociedade.

Definindo os cercos em função de "bem" e "mal":

Por que devemos entender o que é “bem” e “mal” para os antigos germânicos? Os conceitos de “bem” e “mal” parecem estar inseridos na oposição existente entre a sociedade humana - e sua jurisdição - e o mundo selvagem (sem lei, fora da lei); isso pode ser observado através de um costume corrente na Islândia Medieval - o de demarcar territórios rurais; tudo aquilo que estava dentro do cerco, portanto sujeito às regras e leis da propriedade, era descrito por Innangarðr; paralelamente, tudo que estava além do cerco era descrito como Útangarðr. Este costume tinha diversas implicações sócio-legais, como também se transcrevia no costume de delimitar espaços sagrados.

A sociedade, então, era dividida em dois cercos - innangarðr e útangarðr. O primeiro abrigava aqueles inseridos na sociedade civil e contribuinte para manutenção da lei e do friðr; já o segundo abrigava aqueles que estavam inseridos às margens da lei - sociedade; não apenas criminosos como também toda sorte de seres não-corpóreos como trolls, gigantes e perigosos espíritos.

Se as próprias definições de “bem” e “mal” derivam da organização social, fica claro que a estrutura social e suas implicações legais são a essência da cosmovisão germânica e que, por observação, podemos perceber que quase todos os conceitos ritualísticos e de conduta derivam de fatores que influenciam a sociedade e os laços forjados entre indivíduos, deuses, e outros seres. Contextualizando o útangarðr em tempos modernos Sabe-se que o costume de demarcar espaços que estão sob jurisdição são uma forma secular do conceito de cercos, mas não vivemos em uma sociedade que se organiza exatamente como os germânicos o faziam; estamos sujeitos à outras leis e jurisdições. Como o conceito de cercos realmente se aplica a nós em tempos modernos?

Socialmente só podemos aplicar este conceito e derivar nossa própria legislação a partir dele quando formamos uma estrutura conhecida como kindred, já que não temos plenos poderes legislativos em relação à sociedade civil em que vivemos. O kindred, por sua vez, está sujeito à uma legislação de nossa própria criação

Existem certas implicações quando aplicamos este modelo socialmente; algumas pessoas partem do pressuposto de que tudo aquilo que não cabe em nossa ética ou nos é estrangeiro está sujeito a pertencer ao útangarðr. A implicação que isto tem é que os antigos germânicos, de quem derivamos nossa cosmovisão, eram agressivamente xenofóbicos, o que historicamente não é correto - como esperado de povos que participavam de comércio extensivo com outros povos. É possível que vissem outros povos como pertencentes ao seus distintos cercos e que só seriam classificados como externos - pertencentes ao útangarðr - quando posavam ameaça ativa ao seus semelhantes.

É preciso deixar bem claro o que realmente classifica alguém como fora-da-lei em contextos atuais. Todo aquele que ameaça a existência do innangarðr, ou seja, posa qualquer espécie de ameaça à sociedade, é tido como pertencente ao útangarðr. Em tempos antigos, tratava-se de uma questão de vida ou morte, visto que ser fora-da-lei era, literalmente, não estar inserido na lei e, consequentemente, estar vulnerável a qualquer espécie de violência e privado de qualquer privilégio oferecido pela sociedade.

Em tempos atuais, estamos sujeitos às leis impostas pela sociedade civil; quaisquer ameaça à integridade ou honra do kindred são, geralmente, resolvidas a nível tribal, especialmente considerando que não existe um corpo que governa o paganismo germânico em escala mundial. Nada garante que uma pessoa que foi proscrita/banida de um kindred será considerada um fora-da-lei por outro kindred ou grupo; o melhor que podemos fazer hoje em dia é esperar que as pessoas sejam de fato reconhecidas pelo seu real valor - em outras palavras, por suas ações.

Ritualisticamente falando, é possível verificar a aplicação destes conceitos no costume de demarcar espaço físico, determinando leis e protocolos para assim separá-lo do mundo comum e torná lo sagrado.

Aplicando cercos a outros conceitos:

É possível também associar os dois conceitos a estados mentais, nos quais um é ligado a moralidade e ordem social e o outro ao caos e desordem social. Ainda podemos ligar estes conceitos ao conceito de friðr, palavra que está frequentemente ligada ao conceito de innangarðr; incluir alguém em um innangarðr é fornecer um espaço ou local onde a pessoa está livre de conflito; ou seja, usufruir do friðr, assim como conceder friðr é, literalmente, restaurar os direitos civis de um fora da lei.

Fontes:
We are our deeds: The elder heathenry, its ethic and thew - Wódening, Eric
Culture and History in Medieval Iceland: an Anthropological Analysis of Structure and Change - Hastrup, Kristen