Delimitando o Sagrado - Um modelo prático para demarcar locais para uso ritualístico

Texto por Caio Mello 
Revisão: Clarissa Roldi

Quando nós como heathens engajamos no ato ritualístico, entramos em uma era diferente, uma era mítica; cada ato do rito é uma encenação e uma descrição de uma história. O espaço separado para a realização desses atos está além da jurisdição comum, da jurisdição do homem e deve portanto ser diferenciado de alguma forma. 

Sabemos historicamente que o rito do martelo é uma adaptação da ritualística de consagração Wiccana, que por sua vez adaptou este rito se baseando no Rito Do Pentagrama menor, que é um ato pertencente a alta magia do final do século 20. Isto é um fato, temos conhecimento tanto das origens deste rito quanto da sua adaptação para o contexto nórdico - a confirmação da cópia é dada pelos próprios adaptadores. Podemos então concluir que o rito do martelo é uma facilidade moderna e houveram motivos práticos para sua adaptação na época.

É preciso entender que consagração no conceito germânico funciona de forma diferente - e veja que estamos usando a palavra consagrar no sentido de tornar sagrado. É importante lembrar que o ato de abençoar não é visto como equivalente ao de consagrar.

O primeiro é possível devido a presença de forças numinosas*¹, como visto nas sagas em que o deus Thor (também apelidado de Véur*) consagra objetos com seu martelo, que é de onde vem uma das premissas para a temática do rito do martelo. O segundo ato, abençoar, é visto como uma simples transferência de potência ou mægin (força sobrenatural), podendo ser feito por qualquer pessoa (ou ser) - daí o ato de abençoar usando o formato “ser/deus(a) blessadur”.

Para deixar mais claro ainda, a consagração é dada pela demarcação de um espaço seguida da definição de um protocolo para então evocar forças e potências numinosas que serão encarregadas de transformar a natureza do espaço de mundano para sagrado.

O conceito original de separar uma área para uso sagrado ainda existe na nossa sociedade em forma secular; a legislação cria limites físicos e jurídicos para espaços e seus usos. Entender isto é essencial para reconstruir o costume de demarcar espaços.

É claro que, por ser base do nosso sistema legal, dificilmente percebemos que esta tradição é mais antiga do que pensamos. Temos evidências nas próprias sagas de conceitos que se derivam a partir da demarcação de locais como visto no fridr* que existe numa thing* ou do próprio processo de demarcar terras descritos no Landnamabók.

Uma declaração legal de demarcação é basicamente dada pelos seguintes tópicos:

  1. Respeitar os limites/fronteiras demarcadas;
  2. Compreender que infringir as regras definidas pela comunidade marca o infrator como fora da lei, portanto, fora da jurisdição da comunidade;
  3. Compreender a divisão entre Innangarðr* (aquilo que está dentro da lei) e Utangarðr* (aquilo que está fora da lei);
  4. Compreender que aquilo que pertence ao lado de dentro*, deve ser tratado com respeito;
  5. Compreender a natureza e o motivo da demarcação de terra;
  6. Ter a ciência que qualquer infração a lei interna resulta em exílio.

Com base nessas premissas, é possível estipular um modelo de demarcação cujo objetivo é tornar o espaço propício para atos sagrados, um espaço a parte do mundo comum:

  1. Aqueles que conduzem o rito devem decidir e consentir ao ato de demarcaram o espaço diante da instrução do góðí ou do líder dirigente deste rito em particular;
  2. A área então é demarcada; qualquer objeto pode ser usado para demarcar o espaço - cordas, paus, pedras e até marcações naturais. Devido à natureza pragmática dos povos germânicos, improvisação é visto como ferramenta nessa parte;
  3. O dirigente então declara o motivo a que se deve a reunião;
  4. Em seguida são declarados as leis de acordo com as premissas de lei anteriormente citadas:
    1. Aplicar a divisão “dentro” e “fora”, explicitando quem pode comparecer a reunião, incluindo seres não corpóreos;
    2. Protocolos e regras especiais a respeito do local como comportamento, porte ou não de armas, interações especiais, títulos e funções especiais e outros. Em suma: a lei aplicada à reunião;
    3. O nível de proscrição, isto é, da punição caso haja quebra de protocolos;
  5. É especialmente interessante explicitar a responsabilidade de pessoas que estão aos cuidados de outro membro interno da reunião - como é o caso de menores de idade e de convidados;
  6. Feita a declaração, todos que compareceram devem consentir a agir com base nestes protocolos e, caso alguém discorde, deve-se retirar;
  7. Finalmente a fogueira pode ser acesa**
Espera-se do praticante que, ao usar este modelo, esse compreenda a essência da coisa e adapte o modelo ao seu uso. É também necessário deixar claro que o objetivo deste texto não é criticar o rito do martelo, mas fornecer uma base para a reconstrução de um rito baseado em uma tradição histórica, mesmo porque muitas comunidades e kindreds continuam a usar o rito do martelo por questões pessoais ou simplesmente pelo fato de que se tornou uma tradição estabelecida.

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Numinosas*: Sagradas.
Véur*: Consagrador.
fridr*: Literalmente paz, descreve um sentimento oriundo da busca de harmonia e ausência de conflito dentro da própria comunidade e consigo mesmo.
thing*: Literalmente assembléia, termo usado para denominar reuniões que decidiam assuntos da comunidade.
Innangarðr*: Cerco interno, descreve física e metafisicamente tudo que está sob jurisdição da sociedade e á aqueles que são íntimos.
Utangarðr*: Cerco externo, aquilo que está fora da jurisdição da sociedade, aqui se encontram seres agressores e foras da lei.
* Pertencente ao Innangarðr.
**A fogueira era visto como o ponto central das reuniões no mundo germânico.

Referência:
LINZIE, Bil - Germanic Spirituality, Appendex a: A substitute for the hammer rite.