Parentesco na Visão Heathen: A Importância de Abandonar o Conceito de “Irmandade Universal”

Texto por Clarissa Roldi

É de comum ocorrência a situação onde um heathen é chamado de “irmão/irmã” por outro, pelo simples fato de dividirem uma “fé” em comum.

O primeiro ponto que eu gostaria de ressaltar - e inclusive explicar por que usei o termo “fé” entre aspas - é que paganismo não se resume a esta “fé” no sentido religioso. Paganismo engloba todo um estilo de vida, por assim dizer, com sua própria cosmovisão, trazendo valores singulares. É sobre como conviver com o mundo à nossa volta, com a nossa comunidade, como se portar diante de determinadas situações. Vai além do “culto religioso” – e crenças no sobrenatural – em si, sendo esta apenas uma das várias práticas inseridas culturalmente no cotidiano. Nossas práticas não estão relacionadas ao enaltecimento do divino, e sim às nossas ações em relação à nossa comunidade - em suma, é uma prática tribal.

Sendo assim, como posso chamar de irmão alguém que não conheço? Alguém que não faz parte do meu convívio, que não está diretamente inserido no meu dia a dia, que não divide uma prática comigo.

O segundo ponto é que a ideia de sermos todos irmãos não é pagã, e sim uma ideia que veio com a cristianização e o batismo na fé em um único deus, como se estivéssemos a “renascer” em uma família onde todos são filhos do mesmo deus, logo, tornando-se irmãos. Está é uma concepção que não faz parte da visão heathen.  

As ideias de família eram de extrema relevância para os antigos; os laços dentro do kin, seja um parentesco herdado através do sangue ou adquirido por um juramento, estabelecem a hierarquia, herança, direitos e deveres relacionados à honra, vingança. Colocar-se na posição de família, além de diminuir a importância histórica que existe na visão heathen no que diz respeito a laços de familiaridade, é violar de forma invasiva e grosseira os limites mais íntimos do Innangard.

Existe, ainda, em muitos pagãos, conceitos cristãos, assim como este de irmandade universal. É compreensível que exista uma dificuldade em assimilar valores heathen, visto que fomos criados em uma sociedade moderna, constantemente sendo bombardeados com valores cristãos desde o nascimento – o batismo, por exemplo – diferente de outros que foram criados dentro da visão de mundo heathen e que assimilaram valores pré-cristãos ao longo de suas vidas.

O que não é compreensível, no entanto, é a persistência que existe em muitos em querer “combinar” valores modernos a valores tradicionais (que se pautam em uma tradição) e buscam justificativas para tais atos.

Antes de chamar o outro de irmão, pare e pense se você convidaria um completo estranho para dentro da sua casa – porque o conceito de parentesco na visão heathen é, basicamente (posto de forma mais simplista), este; compartilhar do mesmo Innangard.

Ainda que exista este “impulso” de buscar relações próximas com outros que compartilham da mesma visão que você – é compreensível, uma vez que a busca por intimidade faz parte da natureza humana – atenha-se aos costumes da tradição que você escolheu seguir. É imprescindível, na grande maioria das vezes, que haja uma reconstrução do self para aqueles que escolhem seguir este caminho.

Isso, é claro, é uma escolha; você pode muito bem adotar uma “mistureba” para a sua vida e aderir apenas aos elementos que lhe convém, é a sua prática pessoal. Só não a chame de paganismo germânico tribal e mantenha o respeito por aqueles que escolheram seguir o caminho tradicional – não se dirija a nós como irmãos.

Relações de irmandade – familiaridade, no geral – devem ser construídas a partir de bases sólidas, onde exista convívio, confiança, lealdade. Abraçar a ideia de irmandade universal e construir falsos laços de parentesco não resultará na constituição de nada que traga valor significativo, tampouco duradouro.