Definindo e Contextualizando Papéis Tribais: O papel do Thulr

Texto por Caio L. Mello
Revisão: Clarissa Roldi

Sujeito a muitas especulações, o papel do thulr talvez seja um dos mais incompreendidos dentro do paganismo germânico moderno. Não existem muitas certezas a respeito do seu real propósito; no entanto, é de consenso geral as conclusões retiradas a partir de sagas e poemas antigos.

Em sua tradução para o latim, a palavra thulr (OE Þyle, ON Þulr) é traduzida como “orador”; os dicionários mais completos da língua nórdica arcaica parecem definir thulr como “sábio”. Temos uma evidência que reforça esta definição em uma das partes do Hávamál:




O Hávamál confirma a noção de que o thulr é um sábio; porém, não podemos limitar seu papel a isso somente. A palavra composta þylcræft, original do Inglês Arcaico, traduz para “retórica, eloquência”, indicando que há outras responsabilidade atribuídas a este papel.

No poema épico Beowulf vemos que o personagem Unferth, thulr da corte do rei Hrothgar, parece desempenhar o papel de um procurador, colocando em dúvida a afirmação do herói Beowulf, onde este diz que mataria o monstro Grendel. Com base nessas evidências é possível supor que um thulr deve cumprir três papéis principais dentro de um grupo:

  1. Agir como conselheiro para com seus kinsmen*;
  2. Assumir o papel de orador dentro das responsabilidades dos ritos e da manutenção do kindred;
  3. Arbitrar entre os juramentos, verificando se são apropriados - se podem de fato ser cumpridos.

O papel do thulr em tempos modernos

O papel do thulr em tempos modernos pode ser expresso em termos de dois contextos: dentro do rito e fora do rito. Dentro do rito ele tem total responsabilidade sobre o wyrd* e a sorte* do seu kindred, garantindo que antes do rito todos estejam cientes das tradições do kindred e dos procederes dentro do rito. Este deve se atentar a qualquer tipo de comportamento inapropriado e impedir que a desordem tome proporções maiores durante o proceder do rito, de forma a manter o griðr*.

O segundo dever do thulr é garantir que os juramentos feitos durante o sumbl* não sejam inapropriados; em outras palavras, se podem ser cumpridos ou se são estão de fato no melhor dos interesses do jurando. Todo juramento deve ser cuidadosamente examinado e avaliado durante sua procedência, podendo ser ou não aprovado naquele instante. Um juramento deve ser claro, sólido e objetivo. Qualquer um presente no local do rito pode fazer comentários ou objeções ao juramento, mas cabe ao thulr avaliar e ratificá-lo.

Juramentos não só devem ser apropriados como devem possuir encargos - shyld - caso sejam quebrados; isso preserva a honra do jurando e a força do kindred. Ou seja, caso o juramento seja quebrado, o jurando poderá restaurar sua honra e buscar reparação por meio deste encargo. É também dever do thulr avaliar se o encargo é suficiente e sugerir alternativas caso não seja ou limitá-lo caso seja exagerado.

Fora do rito o thulr é tipicamente visto como braço direito do líder tribal, agindo como conselheiro em quaisquer decisões tomadas, como também aquele que garante a segurança física e social do líder, tomando as rédeas quando a situação exigir.

Como protetor da sorte e guardião do conhecimento, o thulr deve manter registro e manutenção das tradições e costumes do kindred, educando novos membro a respeito do funcionamento interno e mantendo registro dos juramentos feitos ao longo da trajetória das coisas.

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kinsmen*: Literalmente parentes; termo usado para descrever parentesco, a relação familiar existente entre membros de um kindred.
wyrd*: destino em contexto germânico; aquilo que será; exprime a ideia de que nossas ações - ou inações - tem um resultado nas nossas vidas e por conseguinte na daqueles com os quais possuímos laços.
sorte*: em contexto germânico, não sendo ligada ao acaso de forma rasa; é a manifestação das nossas ações em forma de uma força que nos dirige ao sucesso; é visto como a manifestação da força de um kindred.
griðr*: É uma espécie de friðr (paz) temporária, ausência de conflito durante determinado tempo; é uma obrigação social imposta quando há mais de um kindred presente ou quando há membros e não membros congregados num local.
sumbl*: Também conhecido como Symbel (OE) e Sumbel (adaptação entre os dois termos), é um rito ligado a brindes, juramentos e histórias; tem como propósito atar laços entre pessoas.




Innangarðr e Útangarðr: O bem, o mal, e suas implicações na legalidade e cosmovisão nórdica

 Texto por Caio L. Lima
Revisão: Clarissa Roldi
Definindo “bem” e “mal”:

Os antigos germânicos possuíam, de fato, um conceito de “bem” e “mal”. Este conceito surge da forma como eles se organizam socialmente em oposição à definições modernas ligadas à religião; não podemos dizer que estes conceitos na cosmovisão nórdica estão desligados de crenças, já que os costumes e leis sociais eram a essência da prática religiosa antiga, mas é possível afirmar que eles não surgem unicamente de conceitos religiosos.

Devemos analisar a palavra “bem” - no caso, “good” - que tem sua origem em *gódanaz, do Proto-Germânico, e em *ghedh, do Proto-Indo-Europeu, traduzidos como “apropriado” e “unir, pertencer” respectivamente. O que podemos extrair disto? Se “bem” e “mal” estão definidos em torno da estrutura social, o “bem” então é definido como “aquilo que é apropriado/cabível a sociedade”.

Analogamente, se o “bem” é definido como tudo aquilo que beneficia ou que pertence a uma sociedade, o “mal” é, então, definido como tudo que é inapropriado ou que não pertence à sociedade.
Para os germânicos antigos, pagãos de outrora, os conceitos “sociedade” e “lei” eram sinônimos; sendo assim, é possível inferir que “bem” e “mal” estão ligados a tudo que está dentro da lei e tudo aquilo que está fora da lei. O costume de equiparar a sociedade à lei é melhor ilustrado pela punição de crimes hediondos - o criminoso era tido como fora-da-lei, e estar fora da lei era o equivalente a ser proscrito, isto é, removido da sociedade civil.

Sabendo que lei e sociedade são equivalentes, podemos redefinir o conceito de “bem” como “aquilo que é apropriado para a lei”. Logo, por definição, uma lei não deve de forma alguma prejudicar a sociedade - uma lei só é lei de fato quando é apropriada para a sociedade.

Definindo os cercos em função de "bem" e "mal":

Por que devemos entender o que é “bem” e “mal” para os antigos germânicos? Os conceitos de “bem” e “mal” parecem estar inseridos na oposição existente entre a sociedade humana - e sua jurisdição - e o mundo selvagem (sem lei, fora da lei); isso pode ser observado através de um costume corrente na Islândia Medieval - o de demarcar territórios rurais; tudo aquilo que estava dentro do cerco, portanto sujeito às regras e leis da propriedade, era descrito por Innangarðr; paralelamente, tudo que estava além do cerco era descrito como Útangarðr. Este costume tinha diversas implicações sócio-legais, como também se transcrevia no costume de delimitar espaços sagrados.

A sociedade, então, era dividida em dois cercos - innangarðr e útangarðr. O primeiro abrigava aqueles inseridos na sociedade civil e contribuinte para manutenção da lei e do friðr; já o segundo abrigava aqueles que estavam inseridos às margens da lei - sociedade; não apenas criminosos como também toda sorte de seres não-corpóreos como trolls, gigantes e perigosos espíritos.

Se as próprias definições de “bem” e “mal” derivam da organização social, fica claro que a estrutura social e suas implicações legais são a essência da cosmovisão germânica e que, por observação, podemos perceber que quase todos os conceitos ritualísticos e de conduta derivam de fatores que influenciam a sociedade e os laços forjados entre indivíduos, deuses, e outros seres. Contextualizando o útangarðr em tempos modernos Sabe-se que o costume de demarcar espaços que estão sob jurisdição são uma forma secular do conceito de cercos, mas não vivemos em uma sociedade que se organiza exatamente como os germânicos o faziam; estamos sujeitos à outras leis e jurisdições. Como o conceito de cercos realmente se aplica a nós em tempos modernos?

Socialmente só podemos aplicar este conceito e derivar nossa própria legislação a partir dele quando formamos uma estrutura conhecida como kindred, já que não temos plenos poderes legislativos em relação à sociedade civil em que vivemos. O kindred, por sua vez, está sujeito à uma legislação de nossa própria criação

Existem certas implicações quando aplicamos este modelo socialmente; algumas pessoas partem do pressuposto de que tudo aquilo que não cabe em nossa ética ou nos é estrangeiro está sujeito a pertencer ao útangarðr. A implicação que isto tem é que os antigos germânicos, de quem derivamos nossa cosmovisão, eram agressivamente xenofóbicos, o que historicamente não é correto - como esperado de povos que participavam de comércio extensivo com outros povos. É possível que vissem outros povos como pertencentes ao seus distintos cercos e que só seriam classificados como externos - pertencentes ao útangarðr - quando posavam ameaça ativa ao seus semelhantes.

É preciso deixar bem claro o que realmente classifica alguém como fora-da-lei em contextos atuais. Todo aquele que ameaça a existência do innangarðr, ou seja, posa qualquer espécie de ameaça à sociedade, é tido como pertencente ao útangarðr. Em tempos antigos, tratava-se de uma questão de vida ou morte, visto que ser fora-da-lei era, literalmente, não estar inserido na lei e, consequentemente, estar vulnerável a qualquer espécie de violência e privado de qualquer privilégio oferecido pela sociedade.

Em tempos atuais, estamos sujeitos às leis impostas pela sociedade civil; quaisquer ameaça à integridade ou honra do kindred são, geralmente, resolvidas a nível tribal, especialmente considerando que não existe um corpo que governa o paganismo germânico em escala mundial. Nada garante que uma pessoa que foi proscrita/banida de um kindred será considerada um fora-da-lei por outro kindred ou grupo; o melhor que podemos fazer hoje em dia é esperar que as pessoas sejam de fato reconhecidas pelo seu real valor - em outras palavras, por suas ações.

Ritualisticamente falando, é possível verificar a aplicação destes conceitos no costume de demarcar espaço físico, determinando leis e protocolos para assim separá-lo do mundo comum e torná lo sagrado.

Aplicando cercos a outros conceitos:

É possível também associar os dois conceitos a estados mentais, nos quais um é ligado a moralidade e ordem social e o outro ao caos e desordem social. Ainda podemos ligar estes conceitos ao conceito de friðr, palavra que está frequentemente ligada ao conceito de innangarðr; incluir alguém em um innangarðr é fornecer um espaço ou local onde a pessoa está livre de conflito; ou seja, usufruir do friðr, assim como conceder friðr é, literalmente, restaurar os direitos civis de um fora da lei.

Fontes:
We are our deeds: The elder heathenry, its ethic and thew - Wódening, Eric
Culture and History in Medieval Iceland: an Anthropological Analysis of Structure and Change - Hastrup, Kristen


Delimitando o Sagrado - Um modelo prático para demarcar locais para uso ritualístico

Texto por Caio L. Mello
Revisão: Clarissa Roldi

Quando nós como heathens engajamos no ato ritualístico, entramos em uma era diferente, uma era mítica; cada ato do rito é uma encenação e uma descrição de uma história. O espaço separado para a realização desses atos está além da jurisdição comum, da jurisdição do homem e deve portanto ser diferenciado de alguma forma. 

Sabemos historicamente que o rito do martelo é uma adaptação da ritualística de consagração Wiccana, que por sua vez adaptou este rito se baseando no Rito Do Pentagrama menor, que é um ato pertencente a alta magia do final do século 20. Isto é um fato, temos conhecimento tanto das origens deste rito quanto da sua adaptação para o contexto nórdico - a confirmação da cópia é dada pelos próprios adaptadores. Podemos então concluir que o rito do martelo é uma facilidade moderna e houveram motivos práticos para sua adaptação na época.

É preciso entender que consagração no conceito germânico funciona de forma diferente - e veja que estamos usando a palavra consagrar no sentido de tornar sagrado. É importante lembrar que o ato de abençoar não é visto como equivalente ao de consagrar.

O primeiro é possível devido a presença de forças numinosas*¹, como visto nas sagas em que o deus Thor (também apelidado de Véur*) consagra objetos com seu martelo, que é de onde vem uma das premissas para a temática do rito do martelo. O segundo ato, abençoar, é visto como uma simples transferência de potência ou mægin (força sobrenatural), podendo ser feito por qualquer pessoa (ou ser) - daí o ato de abençoar usando o formato “ser/deus(a) blessadur”.

Para deixar mais claro ainda, a consagração é dada pela demarcação de um espaço seguida da definição de um protocolo para então evocar forças e potências numinosas que serão encarregadas de transformar a natureza do espaço de mundano para sagrado.

O conceito original de separar uma área para uso sagrado ainda existe na nossa sociedade em forma secular; a legislação cria limites físicos e jurídicos para espaços e seus usos. Entender isto é essencial para reconstruir o costume de demarcar espaços.

É claro que, por ser base do nosso sistema legal, dificilmente percebemos que esta tradição é mais antiga do que pensamos. Temos evidências nas próprias sagas de conceitos que se derivam a partir da demarcação de locais como visto no fridr* que existe numa thing* ou do próprio processo de demarcar terras descritos no Landnamabók.

Uma declaração legal de demarcação é basicamente dada pelos seguintes tópicos:

  1. Respeitar os limites/fronteiras demarcadas;
  2. Compreender que infringir as regras definidas pela comunidade marca o infrator como fora da lei, portanto, fora da jurisdição da comunidade;
  3. Compreender a divisão entre Innangarðr* (aquilo que está dentro da lei) e Utangarðr* (aquilo que está fora da lei);
  4. Compreender que aquilo que pertence ao lado de dentro*, deve ser tratado com respeito;
  5. Compreender a natureza e o motivo da demarcação de terra;
  6. Ter a ciência que qualquer infração a lei interna resulta em exílio.

Com base nessas premissas, é possível estipular um modelo de demarcação cujo objetivo é tornar o espaço propício para atos sagrados, um espaço a parte do mundo comum:

  1. Aqueles que conduzem o rito devem decidir e consentir ao ato de demarcaram o espaço diante da instrução do góðí ou do líder dirigente deste rito em particular;
  2. A área então é demarcada; qualquer objeto pode ser usado para demarcar o espaço - cordas, paus, pedras e até marcações naturais. Devido à natureza pragmática dos povos germânicos, improvisação é visto como ferramenta nessa parte;
  3. O dirigente então declara o motivo a que se deve a reunião;
  4. Em seguida são declarados as leis de acordo com as premissas de lei anteriormente citadas:
    1. Aplicar a divisão “dentro” e “fora”, explicitando quem pode comparecer a reunião, incluindo seres não corpóreos;
    2. Protocolos e regras especiais a respeito do local como comportamento, porte ou não de armas, interações especiais, títulos e funções especiais e outros. Em suma: a lei aplicada à reunião;
    3. O nível de proscrição, isto é, da punição caso haja quebra de protocolos;
  5. É especialmente interessante explicitar a responsabilidade de pessoas que estão aos cuidados de outro membro interno da reunião - como é o caso de menores de idade e de convidados;
  6. Feita a declaração, todos que compareceram devem consentir a agir com base nestes protocolos e, caso alguém discorde, deve-se retirar;
  7. Finalmente a fogueira pode ser acesa**
Espera-se do praticante que, ao usar este modelo, esse compreenda a essência da coisa e adapte o modelo ao seu uso. É também necessário deixar claro que o objetivo deste texto não é criticar o rito do martelo, mas fornecer uma base para a reconstrução de um rito baseado em uma tradição histórica, mesmo porque muitas comunidades e kindreds continuam a usar o rito do martelo por questões pessoais ou simplesmente pelo fato de que se tornou uma tradição estabelecida.

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Numinosas*: Sagradas.
Véur*: Consagrador.
fridr*: Literalmente paz, descreve um sentimento oriundo da busca de harmonia e ausência de conflito dentro da própria comunidade e consigo mesmo.
thing*: Literalmente assembléia, termo usado para denominar reuniões que decidiam assuntos da comunidade.
Innangarðr*: Cerco interno, descreve física e metafisicamente tudo que está sob jurisdição da sociedade e á aqueles que são íntimos.
Utangarðr*: Cerco externo, aquilo que está fora da jurisdição da sociedade, aqui se encontram seres agressores e foras da lei.
* Pertencente ao Innangarðr.
**A fogueira era visto como o ponto central das reuniões no mundo germânico.

Referência:
LINZIE, Bil - Germanic Spirituality, Appendex a: A substitute for the hammer rite.


Parentesco na Visão Heathen: A Importância de Abandonar o Conceito de “Irmandade Universal”

Texto por Clarissa Roldi

É de comum ocorrência a situação onde um heathen é chamado de “irmão/irmã” por outro, pelo simples fato de dividirem uma “fé” em comum.

O primeiro ponto que eu gostaria de ressaltar - e inclusive explicar por que usei o termo “fé” entre aspas - é que paganismo não se resume a esta “fé” no sentido religioso. Paganismo engloba todo um estilo de vida, por assim dizer, com sua própria cosmovisão, trazendo valores singulares. É sobre como conviver com o mundo à nossa volta, com a nossa comunidade, como se portar diante de determinadas situações. Vai além do “culto religioso” – e crenças no sobrenatural – em si, sendo esta apenas uma das várias práticas inseridas culturalmente no cotidiano. Nossas práticas não estão relacionadas ao enaltecimento do divino, e sim às nossas ações em relação à nossa comunidade - em suma, é uma prática tribal.

Sendo assim, como posso chamar de irmão alguém que não conheço? Alguém que não faz parte do meu convívio, que não está diretamente inserido no meu dia a dia, que não divide uma prática comigo.

O segundo ponto é que a ideia de sermos todos irmãos não é pagã, e sim uma ideia que veio com a cristianização e o batismo na fé em um único deus, como se estivéssemos a “renascer” em uma família onde todos são filhos do mesmo deus, logo, tornando-se irmãos. Está é uma concepção que não faz parte da visão heathen.  

As ideias de família eram de extrema relevância para os antigos; os laços dentro do kin, seja um parentesco herdado através do sangue ou adquirido por um juramento, estabelecem a hierarquia, herança, direitos e deveres relacionados à honra, vingança. Colocar-se na posição de família, além de diminuir a importância histórica que existe na visão heathen no que diz respeito a laços de familiaridade, é violar de forma invasiva e grosseira os limites mais íntimos do Innangard.

Existe, ainda, em muitos pagãos, conceitos cristãos, assim como este de irmandade universal. É compreensível que exista uma dificuldade em assimilar valores heathen, visto que fomos criados em uma sociedade moderna, constantemente sendo bombardeados com valores cristãos desde o nascimento – o batismo, por exemplo – diferente de outros que foram criados dentro da visão de mundo heathen e que assimilaram valores pré-cristãos ao longo de suas vidas.

O que não é compreensível, no entanto, é a persistência que existe em muitos em querer “combinar” valores modernos a valores tradicionais (que se pautam em uma tradição) e buscam justificativas para tais atos.

Antes de chamar o outro de irmão, pare e pense se você convidaria um completo estranho para dentro da sua casa – porque o conceito de parentesco na visão heathen é, basicamente (posto de forma mais simplista), este; compartilhar do mesmo Innangard.

Ainda que exista este “impulso” de buscar relações próximas com outros que compartilham da mesma visão que você – é compreensível, uma vez que a busca por intimidade faz parte da natureza humana – atenha-se aos costumes da tradição que você escolheu seguir. É imprescindível, na grande maioria das vezes, que haja uma reconstrução do self para aqueles que escolhem seguir este caminho.

Isso, é claro, é uma escolha; você pode muito bem adotar uma “mistureba” para a sua vida e aderir apenas aos elementos que lhe convém, é a sua prática pessoal. Só não a chame de paganismo germânico tribal e mantenha o respeito por aqueles que escolheram seguir o caminho tradicional – não se dirija a nós como irmãos.

Relações de irmandade – familiaridade, no geral – devem ser construídas a partir de bases sólidas, onde exista convívio, confiança, lealdade. Abraçar a ideia de irmandade universal e construir falsos laços de parentesco não resultará na constituição de nada que traga valor significativo, tampouco duradouro.